Quinze anos

Quando juntou as mãos para bater palmas desejava sem muita clareza que ninguém aparecesse na porta. Ficaria um instante mais, por desencargo, e então sairia de costas, sem se voltar uma vez que fosse, até o primeiro ônibus, até o quarto ou o pátio de São Pedro e uma cerveja. No escritório, diria que não havia ninguém, que o homem da casa não aparecera, que  talvez ele não esteja interessado, e fosse melhor procurarmos outro local, existem outras casas no bairro, e noutros bairros tão bons.

Àquela hora o jardim recendia a erva-doce e folhas secas, ao branco escurecido das paredes ao sol. Aquelas duas horas de verão e ele olhando, nenhuma brisa, se preparava já para sair, quando um homem apareceu lá de trás, veio vindo devagar, meio curvado e sempre, se aproximando até o portão e Boas tardes, e Aqui a chave, o Senhor olha e depois me devolve, pode gritar quando terminar. O homem voltou-se e saiu andando  para os fundos da casa de onde veio. Parado, ele olhava alternado homem, casa, jardim, casa, o cheiro vindo do jardim.

Suor escorrendo, gatos ao sol, quinze anos a distância do portão até a porta meio cinza meio verde-quase-não-mais. Até que a abriu e um cheiro de coisas velhas e alecrim, séculos de umidade, rosas vermelhas e margaridas, mofo, azulejos quebrados e bogaris de antes de um casamento o envolveu. Deu um passo para  trás, tirou os óculos de sol e por um momento tornou a olhar a casa, o jardim, a rua lá fora. Pensou na hora, em Patrícia esperando, em como é muito tempo quinze anos, embora às vezes quase nada, e de repente a barba que esquecera de fazer, dois dias, um bater surdo no peito, Patrícia esperando, tudo isso quase tendo mais urgência, mas então já havia entrado, azulejos quebrados, portas e janelas fechadas.

Abriu de par em par cada uma das sete janelas do andar térreo. As paredes cheirantes a mofo deviam ter séculos sem sol e talvez algumas camadas de tinta a mais, embora já tivessem quase perdido a cor. A sala ficara maior sem tantos móveis, sem aqueles discos na estante, tanto Albinoni não combinava com os cabelos longos de André. Mas era Albinoni que estava ali, agora como outra vez a quinze anos, aquele violino se arrastando entre as salas, até a escada, o primeiro andar fechado, aquele primeiro andar de coisas encostadas, um sótão enorme, janelas fechadas encortinadas anoitecidas como lá fora, um abajur aceso, um divã de bolinhas “del color de la rosa”, uma pia batismal no centro do espaço, o velocípede quebrado num canto, junto a restos de outros sonhos espalhados pelo quarto. Ah, Marina, aquele cheiro de guardado  nas coisas descendo pelas escadas agora, entre aqui embaixo rosas bogaris cravos rosas bogaris, chá às oito ou suco de graviola na véspera de um casamento.

A luz de agora parecia se repetir, tantos anos, mesma luz de sol de agosto, quase verão, inundando a sala, os quartos, antecedendo a penumbra que menos escurecia o primeiro andar, a palidez recobrindo  tapetes desbotados, peles de cobra expostas  na parede, e o banheiro do sótão. Na sala quadros nas paredes, os discos de André, julho e eu ali, mês e meio entre Marina, o jardim de ervas e o primeiro andar fechado.

Olhou a escada sem tirar os olhos, o corrimão cansado já de tantos anos, desde o casamento de Marina e o roqueiro, entre flores e Albinoni, desde que pela última vez resolvera tomar banho lá em cima.

Ah, como queria  ter dito que não, que não fosse, que agora já não dava mais, que agora nossos óculos de sol, até a porta em silêncio, até o primeiro ônibus, até o pátio ou o outro lado da cidade, sem aquelas flores e André, sem aquela música antecipando o fim. Que havia ainda tantos livros urgentes que precisávamos ler, tantas casas antigas e seus jardins para visitarmos, camafeus dourados e chás, como naquela vez entre sol de cinco horas e rendas roxas, entre o rio do outro lado e bogaris quase se abrindo, quase cheirando desde o jardim.

Porque chegastes, então, entre coisas velhas e aquela luz, dizendo algo, falando qualquer coisa , uma última volta antes do inevitável, variação rápida e sutil sobre a melodia, um temporal fora de estação inundando as salas e os quartos. Porque vieste, então, o corpo molhado, naquele mini-sótão que era o banheiro apinhado de coisas, um frio na espinha, tuas coxas, olhos fechados contra a pia enorme, a luz pálida derramada sobre as coisas, e o noivo lá embaixo, fora daquele sótão, daquelas coisas velhas esparramadas, daquela palidez de  bruma, longe de bolinhas cor de rosa e azulejos amarelados.

Porque vieste num quase início de verão me olhando fundo e dizendo qualquer coisa como eu preciso de algo que deixei aqui, e então bem perto, meus olhos te invadindo, uma história antiga começando, séculos de promessas presos na garganta, uma explosão de coisas guardadas, caindo junto com as toalhas, entre móveis velhos e Albinoni vindo lá de baixo. Impossível voltar agora, nossas bocas juntas buscando o que nos tirasse dali para bem longe. Uma fuga na luz do banheiro, juntos sobre bolinhas coloridas, até que rios escorrendo sobre nós e pela última vez então, fica, podemos compor juntos, atravessar rios esquecidos, contar outras estórias que não essa de amor-proibido-às-vésperas-de-, entre flores e um roqueiro, quantos cajueirais não esperam por nós.

Queria ter dito coisas bonitas e convincentes ainda uma vez mais, descer até a sala, cruzar portas, livros, sem esperar, vamos, sem olhar para trás, sem outra coisa que nós de mãos dadas.

Tocou de leve a barba crescendo, lembrou Patrícia esperando em algum lugar, o que diria no escritório. Fechou  as janelas da casa. A porta. Entregou a chave. Sem olhar para trás até o primeiro ônibus, até o pátio, séculos depois.

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