Desmoronamentos

Ia vestindo jeans e camiseta branca enquanto rangia por dentro, os cantos mais escuros – indevassáveis, com quisera por tanto tempo, se abrindo numa implosão sem palavras; um emaranhado de pequenas peças combinadas – aço e óleo sangrando no cimento claro das ruas, enquanto andava, mãos nos bolsos como se ventasse de frio, lábios duros como se outro vento, que não aquela ausência parada de uma tarde azul, pleno verão de três horas numa praça  do Piauí, como se um outro vento, que não esse que talvez lhe sopre agora os cabelos e que eu não percebo, lhe passasse pelo rosto.

Como se doesse.

Cada pisada tremendo em todas as juntas parecia empurrar  implacável para o próprio desmoronamento, canto por canto ruindo aos poucos, a poeira dos tempos se acumulando sobre o que parecia, às vezes, escombros que ele recusava tocar, só olhando de longe, o vermelho daqueles montes que iam  ficando, e a cada passo cada dia aumentando junto com a desconfiança de que hora ia chegar em que teria de olhá-los de frente, tão grandes teriam se tornado e tanto já tomavam do ar que havia para respirar. Multi-anêmico enquanto olheiras crescendo em seu rosto, todos os sonhos, depois outro passo.

O branco da camisa menos claro pelo suor naquele meio de tarde de setembro onde andava agora, os olhos vermelhos ainda da noite anterior quando tocara com as pernas cruzadas sob o violão enquanto a ouvia dizer coisas do mundo e dos anjos que vivem nele.

O suor escorrendo entre rangidos imperceptíveis e todas aquelas castanholas se espalhando entre folhas secas até a saída da praça; profundas olheiras que não eram as dele  escorrendo nas ruas, a solidão por dentro e fora daquele feriado de sol e gatos nas calçadas.

Meio baixo, embora não muito, ia entre calçadas e castanholas, as mãos nos bolsos, até aquele canto parado onde sempre vinha quando chegava e de onde olhava detido aquilo tudo de praças e sol ardente, entre sucos de bacuri, aquele doce meio esparramado pela boca, esfriando por dentro o que rangia baixinho,  dificultando o movimento, e depois aquecendo – feito gelo queimando quando o aperto na mão – e gastando mais ainda o que já  caía sozinho, choque térmico abrindo mais as fendas que, já sangrantes, iam negando tranquilas e implacáveis  aquilo tudo que ele tinha sido, entre aqueles muros brancos e calçadas longas, por todos os anos antes desses de agora onde o suor escuro e aquelas olheiras que não eram as dele escorrendo pelo chão diziam a pulso que me olhe, que não vire o rosto pois não te verás de outro modo, que tome quantos sucos quiser mas vá me mastigando porque eu vou te destruir inteiro, cada bloco, até não restar nada além da sombra do que foste um dia, e será então quando te  construirei de novo, outros blocos, coisa outra que não isso tudo que és e que já recusas olhar.

E enquanto isso outro gole, outra vez o  açúcar felpudo espalhando pela boca, gelando a garganta até chegar ao peito e ele pensando se não, se podia não ter sido assim, se podia não estar sendo assim, sentado agora olhando quase sem querer os montinhos de cacos caídos crescendo , meio escuro meio molhado. Ah, como doem essas olheiras que bem podias ter me negado a tanto tempo atrás, quando ainda era possível recuar e não ouvir tanto Belchior e rum com coca, ou nem tocar quem sebe aqueles tangos  num bar de cinco horas da tarde, longe daí, contando as vezes e as horas em que eu descobriria que um tantinho mais elas tinham crescido, ou enquanto folheando Cortázar numa livraria do centro não buscasse deliberado aquilo mesmo que me propunha a não encontrar, ou ainda em lugares assim, como o de agora, não lembrasse tanto de olheiras, ombros largos e mãos finas e compridas enquanto olhasse para fora e  acima do copo e das mesas.

Agora, no entanto, depois de tudo isso e incontáveis viagens entre dragões e outros seres mitológicos, agora que o cabelo cresceu, a barba roçando leve os dedos da mão, agora que voltara outra vez num verão de setembro, essa Teresina, novamente as ruas largas levando ao rios, as pontes cruzando a Potycabana de postes imensos e resignados, presos ao chão de rochas onde um dia sentamos depois de um suco e disseste coisas do mundo, e de ti, agora já não dava mais…

Junho/1995

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